Saúde e tratamento da dor

Cefaleia, Enxaqueca, Dor Facial e Dor Cervical

Entenda as causas, o diagnóstico e as opções de tratamento para cefaleia, enxaqueca, dor facial e dor cervical com base em evidências científicas.

O que são cefaleia, enxaqueca, dor facial e dor cervical?

Cefaleia é o termo médico para dor de cabeça e reúne mais de 150 tipos diferentes, classificados pela Sociedade Internacional de Cefaleia em primárias, quando a dor de cabeça é a própria doença, e secundárias, quando ela é sintoma de outra condição, como sinusite, problema na coluna cervical ou alteração na articulação temporomandibular.

A enxaqueca (migrânea) é a cefaleia primária mais incapacitante, caracterizada por crises recorrentes de dor pulsátil, geralmente unilateral, associada a náusea, sensibilidade à luz e ao som, podendo ou não ser precedida por aura visual ou sensitiva.

A dor facial e a dor cervical frequentemente se sobrepõem à cefaleia, já que estruturas do pescoço, da face e da cabeça compartilham vias nervosas comuns, sobretudo através do núcleo trigeminocervical, ponto de convergência entre os nervos trigêmeo — responsável pela sensibilidade da face — e as raízes cervicais superiores.

Por esse motivo, um problema na coluna cervical pode se manifestar como dor de cabeça (cefaleia cervicogênica), e uma disfunção da articulação temporomandibular pode causar dor referida na têmpora e na região occipital.

A literatura clássica sobre dor, como a obra de referência organizada por John Bonica, descreve a cefaleia e a dor craniofacial como condições multifatoriais, resultantes da interação entre sensibilização do sistema nervoso periférico e central, fatores vasculares, musculares e psicossociais — o que justifica uma abordagem diagnóstica cuidadosa e um plano terapêutico individualizado.

Causas e fatores associados

A enxaqueca tem forte componente genético e é desencadeada pela ativação do sistema trigeminovascular, com liberação de neuropeptídeos como o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), hoje alvo de tratamentos específicos.

Fatores como privação de sono, jejum prolongado, estresse, variações hormonais e determinados alimentos podem funcionar como gatilhos em pessoas predispostas.

A dor cervical pode originar-se de estruturas:

  • articulares, como as facetas cervicais;
  • discais;
  • musculares, como na síndrome miofascial;
  • neurais, como na radiculopatia cervical.

A cefaleia cervicogênica surge quando essa dor é referida para a cabeça.

Já a dor facial pode ter origem odontológica, sinusal, na articulação temporomandibular ou neuropática, como na neuralgia do trigêmeo, que produz dor em choque, de curtíssima duração, em território do nervo trigêmeo.

O que diz a evidência científica sobre o tratamento?

Revisões sistemáticas publicadas na Cochrane Library e indexadas no PubMed sustentam diferentes níveis de evidência para o manejo da enxaqueca e das dores craniofaciais associadas.

Para crises agudas de enxaqueca, revisões Cochrane sobre anti-inflamatórios — como naproxeno, ibuprofeno, diclofenaco e ácido acetilsalicílico — isolados ou associados a antieméticos, mostram redução da dor em parte significativa dos pacientes, com maior eficácia quando o medicamento é usado precocemente na crise.

Para a prevenção da enxaqueca crônica, uma revisão sistemática Cochrane sobre toxina onabotulínica tipo A mostrou redução modesta, porém consistente, na frequência de dias de dor.

Esse resultado é corroborado por revisões mais recentes publicadas na Annals of Internal Medicine (2024), que avaliaram anticorpos monoclonais anti-CGRP e gepantes, observando melhora relevante na frequência mensal de crises e na qualidade de vida, com perfil de segurança favorável em comparação às medicações preventivas orais mais antigas.

Para a dor cervical e a cefaleia cervicogênica, estudos publicados no PubMed indicam benefício de intervenções combinadas — fisioterapia orientada, exercícios de controle motor cervical e, em casos selecionados, bloqueios anestésicos ou procedimentos de radiofrequência nas facetas cervicais — sempre precedidos por diagnóstico preciso da estrutura geradora da dor.

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em história detalhada das crises e exame neurológico.

Quando há sinais de alarme, como:

  • início súbito e intenso;
  • febre;
  • déficit neurológico;
  • alteração do padrão habitual da dor;

podem ser indicados exames de imagem para afastar causas secundárias.

A avaliação da coluna cervical e da articulação temporomandibular complementa a investigação quando há suspeita de dor referida.

Opções de tratamento

O tratamento é multimodal e individualizado, combinando, conforme o caso:

Tratamento farmacológico

Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados para crises agudas, além de triptanos para enxaqueca moderada a grave.

Medicações preventivas — como betabloqueadores, antidepressivos, anticonvulsivantes e anticorpos anti-CGRP — podem ser utilizadas para quadros frequentes ou incapacitantes.

Tratamento intervencionista

Entre as possibilidades estão:

  • bloqueios de nervo occipital;
  • bloqueios ou radiofrequência de facetas cervicais;
  • infiltração da articulação temporomandibular;
  • toxina botulínica.

Essas intervenções podem ser indicadas em casos refratários ou quando há uma estrutura geradora de dor bem definida.

Abordagem multidisciplinar

Fisioterapia, terapia manual cervical, orientações posturais e manejo de fatores de estresse e sono atuam como coadjuvantes essenciais no controle a longo prazo.

Quando procurar um especialista em dor?

Cefaleias frequentes, dor facial persistente ou dor cervical que não melhora com medidas iniciais merecem avaliação especializada, já que o diagnóstico correto da origem da dor é o que direciona um tratamento eficaz e evita o uso prolongado e desnecessário de medicações analgésicas.

Referências

  1. Bonica JJ. Bonica's Management of Pain. 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins.

  2. Law S, Derry S, Moore RA. Naproxen with or without an antiemetic for acute migraine headaches in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(10):CD009455.

  3. Law S, Derry S, Moore RA. Sumatriptan plus naproxen for the treatment of acute migraine attacks in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(4):CD008541.

  4. Herd CP, Tomlinson CL, Rick C, et al. Cochrane systematic review and meta-analysis of botulinum toxin for the prevention of migraine. BMJ Open. 2019;9:e027953.

  5. Effectiveness and Tolerability of Pharmacologic Prophylaxis for Chronic Migraine: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. Ann Intern Med. 2026;179(6).

  6. Ornello R, Caponnetto V, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine. Cephalalgia. 2024.

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